Opinião

cultura, 17 Agosto, 2015

Elogio das Manhãs

Eu gosto do sol já mais alto, das ideias acordadas, a fome do almoço, coisas mais peremptórias. De todo o modo, por maior esforço que faça para organizar o meu trabalho apenas às tardes e às noites, sei que existo durante as manhãs e, de vez em quando, muito à revelia, acordo. Lido com a evidência desse tempo do dia com perplexidade e profundo desconsolo. Procuro encontrar pontos de interesse, quero dizer, sobrevivência, para aceder a um conforto qualquer, uma sensação de normalidade. Mas, de facto, as manhãs não pertencem à minha normalidade. Vivo-as com a excepcionalidade com que aceitamos as obrigações de família, ir ver uma tia em segundo grau de que não lembrávamos, acompanhar uma missa de memória que já perdeu o sentido, pagar francesinhas aos primos distantes na visita de Verão. Ficar à espera.

Explico às pessoas que convidarem-me para comparecer num lugar às nove horas é o mesmo que esperar de um cidadão mais comum a comparência às cinco ou seis da manhã. O inusitado de se combinar conversas e eventos às cinco ou seis da manhã elucida.

É claro que lamento não ser um pouco mais convencional, aparentado com os outros, entendido e entendível. Mas é muito mais plausível esperar-se escritores à noite, porque tertúlias e apresentações tornam-se programas para depois do jantar, serões a perder de vista. Acabamos por criar um hábito para horas tardias ou desoras. Acostumados à viagem constante, temos a noite no coração do quotidiano ou da rotina possível.

Guardo uma nostalgia, contudo, pelo tempo da universidade, quando seguia no comboio das sete e dez, acordado intensamente, grato pela vida e pela juventude. As manhãs eram úteis e reveladoras. Eram a escola, essa oportunidade de assombro e crescimento. As manhãs eram a tradução linear da esperança. Quem acredita no mundo tem mais probabilidades de ser feliz se frequentar as manhãs. Quero crer. É o tempo da ternurinha, de facto.

Acho que a vida se divide, para cada um, a partir daquela ideia da utilidade do tempo. As minhas manhãs perderam o sentido porque deixaram de me servir. São perfeitas para o sono, para a ausência, o que é um ofício mudo, por negação. Não me servem para a acção. Talvez devido a esta mudança de horários me custe cada vez mais a esperança.

Há dias, acordado por causa de um jet lag violento, enfrentei a manhã igual a um animal desorientado num campo vazio. À primeira, parece que nada existe. A inutilidade da manhã, para mim, era quase uma acusação. Um tormento perante a incapacidade de rentabilizar ou, sequer, apreciar o fresquinho do orvalho. Admito, fiz o mais fácil. Vi o Manuel Luís Goucha e a Cristina Ferreira na televisão. Os dois são a representação imediata da esperança das manhãs. Quase penso que devíamos ser obrigados a acordar cedo apenas para os assistirmos. Disse-lhes, um dia, que são duas figuras de profunda benignidade. Considero isso. Suportam a difícil tarefa de falar para as massas, essa imensidão de sensibilidades impossível de apaziguar, e são expostos numa demasia que é a televisão. Vivem da coragem e, pela esperança, seguem sendo de boa fé. Não aceito que se destrua o trabalho deles. São benignos. Pudéssemos todos ocupar os nossos lugares com o carinho que eles todos os dias demonstram, até diante dos que assistem só para dizerem odiar.

Considero agora que trabalhar na televisão durante as manhãs deve ser ingrato. Os humores ainda não assentaram, ainda ninguém percebeu se vai ser um bom ou mau dia, há sempre a possibilidade de uma fúria do patrão ou chuva ao final da tarde. Quem precisa de defender as manhãs precisa de amansar patrões e romantizar as chuvas. Urge na franca beleza e na contingência de nos esforçarmos uma e outra vez. Para os homens de boa consciência, assistir à manhã é um gesto de afinação moral. Domamos a deriva que há em nós.

Valter Hugo Mãe, em Jornal Público, aqui

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