O vizinho

CRISTINA, 1 Fevereiro, 2019

No dia que falei com ele pela primeira vez, vinha com medo. Medo de que os sonhos não se cumprissem. E vinha cheio deles. Não sabia se os que tinha para ele combinavam com os que tinha imaginado. Vi-o sempre de longe. Do outro lado. O meu bairro era diferente. Mas via-o. Trocámos algumas mensagens nos últimos anos. Não muitas. As suficientes para lhe saber da honra e do respeito. Quando o chamei de vizinho, pela primeira vez, não sei se percebeu logo a importância. Saiu calado daquela reunião. A pensar no que a vida lhe estava a dar. Pedi-lhe para confiar. Confiou. Entra-me em casa quase todos os dias. Nos dias em que não aparece juro que quase que me apetece ir à janela para ver se está bem. Dei-lhe a chave, mas todos os dias este vizinho me tem dado a contracena. Exatamente como a imaginei. Até hoje não combinámos uma única palavra. O que nos sai, é do momento. Dizem que temos química. A mesma palavra que se usa para os inícios do amor. E isso sobra-nos na forma como fazemos televisão. Canta mal, é bem informado e formado, ajuda-me nas limpezas e na cozinha, entra sem ser convidado. A vida normalmente põe tudo no lugar. O nosso é este. Lado a lado num bairro que ainda agora nasceu. Obrigada Cláudio. Acabei de espreitar à janela. E vi-te sossegado. Acho que a sonhar.

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