Escrever futebol

CRISTINA, 16 Maio, 2016

foto jornal Record

Quando me convidaram para escrever sobre desporto para o jornal Record disse logo que sim. Só mais tarde se instalou algum medo pela dificuldade da tarefa. A obrigatoriedade de o fazer, o tema em si, o olhar mais feminino, achava eu, tornavam o desafio mais complicado. Mas não. Adoro escrever a minha crónica semanal. Normalmente ao sábado de manhã. É ao despertar do fim-de-semana que penso no assunto e faço o texto. Às vezes, o mais difícil é mesmo pensar no tema. Sabemos que o futebol ocupa o maior espaço, mas tento introduzir outros desportos e outras figuras centrais sempre que se justifica. O último, claro, falava do fim do campeonato. E o próximo, claro, é sobre o Benfica.

Outros textos no jornal Record:

Verde ou vermelho

Não se fala noutra coisa. Hoje o país vai parar. Mesmo os que não gostam de futebol duvido que sejam capazes de ignorar o assunto. De verde ou vermelho se vai fazer a festa. Os benfiquistas estão mais perto mas, apesar de não equacionarem a derrota, uma ligeira hipótese disso acontecer atormenta-os. Se Jesus ganha é o fim do mundo. É que não é só o Sporting a ganhar nesse caso, é o “traidor” que, afinal, tinha razão. E leva o Ferrari, mostrando que quem tem mãozinhas é que o conduz à meta. Vitória, o “calado”, pode virar herói. Os benfiquistas, que também não acreditaram muito no início, renderam-se ao homem de quem se sabe pouco. O estilo não é marcante, da estratégia soube-se pouco, mas lá foi enchendo o “papo”, que sempre se soube que o primeiro milho é para os pardais e grão a grão enche a galinha o papo. Chateado deve estar o senhor Marquês, hoje não tem descanso do alto da sua estátua. Nas voltas deste campeonato quis o destino que os rivais de Lisboa estejam à espera do sinal verde ou vermelho. Para já, está intermitente . Vamos lá ver se ganha o Bruno, que está até mais leve com a dieta para festejar, ou se a vitória calha ao Rui, cuja mulher vai até, um dia destes, dar à luz.

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foto Jornal Record

O calado

Não me lembro se já aqui falei dele dando-lhe o protagonismo merecido. Mas, faça-se justiça, dedicando estas linhas a Rui Vitória, o treinador calado, como decidi nomeá-lo. E tudo porque, em oposição aos nomes sonantes, barulhentos e mediaticamente mais visíveis, o treinador do Benfica parece-me ser o que menos barulho faz, mas que mais serviço apresenta. O ditado diz que “ovelha que berra, bocado que perde”. Ora nem mais, uns falam, outros comem. Neste caso, ganha balanço o clube da Luz. O “pastor” alinhou as suas “ovelhas” e, agora, é vê los no relvado, a passear, deixando para trás os cães de caça. O futebol faz-se destas emoções. Nem sempre os que se põem em bicos de pés conseguem melhores golos de cabeça. Parece-me que nestes jogos de bastidores Rui vitória foi precisamente o que teve melhor cabeça, fintando os adversários e marcando golos que lhe dão hoje a dianteira do campeonato e os quartos-de-final na Liga dos Campeões. Nem sempre quem vai com muita sede ao pote consegue beber mais água. E não se deitam foguetes antes da festa. Para já, é o Benfica que apanha as canas.

rui vitoria

foto Jornal Record

À defesa

Vitor Baía jogou sempre à defesa, mas parece agora mais virado para o ataque. Num remate certeiro já disse estar preparadíssimo para substituir Pinto da Costa. Ora vamos então a factos. O actual presidente do Futebol Clube do Porto está no clube desde 1982. São muitos anos de liderança e de personalidade vincadas. O check up está feito e dizem os resultados que a saúde está óptima para continuar. Vitor Baía também goza de boa saúde e tem sempre uma nutricionista para o ajudar a manter a linha. O pior é que quando se zangam as comadres descobrem-se as verdades. Foi Fernanda Pinto da Costa a dar o pontapé de saída. A habitualmente calada primeira dama do futebol portista resolveu deitar abaixo o ex-guarda-redes e referiu-se à sua companheira de forma pouco elogiosa. E neste jogo de palavras tudo o que se avizinha não parece fácil de arbitrar. É que se a vida pessoal entra neste combate vamos ter sangue no final. E nem Peseiro pode salvar a honra do “convento”. Não há “estrutura” que aguente, a mesma que Baía diz querer mudar. O melhor se calhar é mesmo pôr as luvas e preparar-se para a defesa. É que o outro jogador conhece bem o campo e costuma ter os “adeptos” a aplaudi-lo de pé.

vitor baía

foto Jornal Record

Carisma

Ou se tem ou não se tem. Todos os grandes, nas mais diversas áreas, são-no porque o têm. O que não se consegue medir mas está lá. Messi nisso perde para Ronaldo. Mas esta crónica vai desviar-se do futebol para, com velocidade e envergadura, fazer um ensaio. Um ensaio sobre o homem que, com os seus 120kg, lutou contra o próprio corpo. Uma doença rara nos rins fazia-o cansar-se rapidamente. Mas ele escolheu ser o melhor de todos. Com uma carreira curta, Jonah Lomu pôs a Nova Zelândia no mapa. Transformou o râguebi em festa. O desporto que, não parecendo, é dos mais seguidos do mundo. A imagem de uma fortaleza que leva tudo à frente foi vista e revista, muitas vezes, na passada quarta-feira, o dia em que morreu. Sabendo da doença que o perseguia, Lomu dizia ter o sonho de ver os filhos chegarem aos 21. Têm apenas 6 e 5 anos. Muito longe de o pai cumprir o sonho. Mas foi ele que levou muitos outros, também miúdos, a sonhar um dia serem iguais a ele. E isso não há doença nenhuma que destrua. Aliás, há lendas a que a morte precoce dá apenas mais força.

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foto Jornal Record

O jogo da vida

Esta semana poderia falar de várias coisas. Era normal que falasse da candidatura de Luís Figo. Era normal que falasse da família exemplar que tem. Era normal que elogiasse a mulher que o acompanha há muitos anos. Era normal que dissesse que tenho orgulho e que torço pela vitória. Mas, por para mim ainda não ser normal, tenho de falar do Hugo. O Hugo que perdeu a noiva que o cancro roubou à vida. E faço-o porque ainda não entendo, porque acho inglória a luta. Porque há forças que não se conseguem combater. A mesma força que Hugo precisa de arranjar e para a qual não há treinos que o preparem. Quando foi diagnosticada a doença à Edina, o jogador deixou o clube em Espanha para acompanhar a namorada. Estamos mais habituados a ouvir falar de mulheres que deixam a sua vida para acompanhar os maridos que vão para fora. Hugo diz que perdeu o seu troféu. Por muitas taças que venha a receber, ele sabe que há amores que valem muito mais que ouro. Ainda que por agora só saiba o sabor amargo da perda. Não sei como se volta ao campo depois de uma jogada tão dura da vida. Mas esse é o grande jogo. Quando depois de uma finta não baixamos os braços e corremos atrás do que ainda nos resta.

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foto Jornal Record

Mãe não corre

Sara tem um filho de um ano. Guilherme Moreira não teve a mãe no aniversário. Estava a correr. Conquistou o terceiro lugar na maratona de nova Iorque. A sua estreia na modalidade. Celebrou a vitória e a conquista após muitos meses de trabalho. Correu mais de 200km por semana para se preparar. Mas não apagou as velas. É uma mãe corredora, como muitas outras, mas faz da corrida profissão. Não sei se o não estar perto do filho a fez correr ainda mais. Não sei se chorou muito no dia em que estava longe. Nenhuma mãe quer estar longe no dia do primeiro aniversário. Mas só vai longe quem persegue os sonhos. E Sara, apesar da difícil decisão, percebeu que este era o momento. Talvez este tenha sido o melhor presente que podia dar ao filho. Um dia, quando lhe contar a história, saberá da importância de ter ido. Do duro que foi estar longe. Mas acredito que uma mãe feliz é uma melhor mãe. Mas nem todas o podem ser. Rosa Mota não foi mãe. Manuela Machado não foi mãe. Fernanda Ribeiro não foi mãe. E talvez essa tenha sido a medalha que lhes faltou. Não sei se alguma vez desejaram subir a esse pódio. Não sei até se fizeram disso bandeira. Sei que, talvez pela profissão, nunca tenham ouvido o mais bonito dos hinos. O dia em que o nosso filho nos chama pela primeira vez: “Mãe”.

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foto Jornal Record

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