A cara

fashion, 4 Agosto, 2015

A Cara

Eu sou o que qualquer um pode ser. O berço fui eu que o construí. Dos meus pais recebi a maior das ferramentas: o amor. Que está lá sempre.”A cama que fizeres nela te irás deitar.” A frase é do meu pai e ouvi-a duas ou três vezes na vida. As suficientes para saber que a vida é minha e que ao escolher um caminho sou eu que o tenho de percorrer. Este foi o meu ensinamento. Eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Mas se cair tenho muitos colos para me apoiar. Cresci num lugar, onde os horizontes eram curtos. E eu prolonguei-os. Passei sempre a serra para ver o que estava para lá. Passei a acreditar que era capaz. Que o trabalho trazia a recompensa. Não tive uma bicicleta nova, não tive um carro novo, não viajei. E aos 12 tive o meu primeiro emprego: vendi farinha para o gado. Sou do campo, da Malveira. Há pouco tempo uma publicação dizia que talvez eu não conseguisse tirar a Malveira de mim. E não tiro mesmo. Não quero. Ninguém me tira o que me dá o chão. O que me agarra à terra prende-me à realidade. Levei muita pancada nesta subida. Em cada degrau lembravam-me de onde vinha. Em vez de me fazerem escorregar davam-me um empurrão para subir mais um. Foi tudo feito a pulso. Com o objectivo de me desafiar, sempre. Eu sei do que não sou capaz. Há quem diga que tenho tido sorte. Eu prefiro falar de benção. Há gente lá em cima que torce por mim. Que bom que é acreditar. Quando soube que estava inserida nesta série, as caras do poder, que elege as trinta pessoas mais poderosas do país, estava em casa da minha mãe. A surpresa foi tanta que vi a emoção nos olhos do meu pai. Ficámos em silêncio. Não fui capaz de dizer nada. Ali naquele lugar, na minha cadeira de sempre, não estava a Cristina apresentadora. Estava a menina despenteada, sem maquilhagem, com a roupa de andar por casa. A que nunca ninguém viu. A que é só dos meus. Porque tenho de guardar alguma coisa. Vi naquele momento o orgulho de pai e mãe. E recompensado todo o esforço que fizeram por mim. E eu própria chorei por dentro. Como é que a miúda do lugar estava no grupo das 30 pessoas mais influentes do país? Talvez porque aos 12 vendi farinhas, aos 13 vendia na feira ao lado dos meus tios, aos 18 pendurava cortinados feitos pela minha mãe, aos 20 vendia bifanas ao lado dos meus pais, aos 23 vendia sapatos numa loja de roupa, aos 24 dava aulas, aos 26 entrei na televisão e aos 37 sou isto. Sem retirar um único ponto. Porque eu sou o que qualquer um pode ser. E não me peçam para não ter orgulho. Os sonhos são de quem corre atrás deles.

  • Comentários

    Artigos relacionados